sábado, 2 de maio de 2009

UM GRUPO ÀS AVESSAS

PUBLICADO EM A GAZETA - VITÓRIA(es), TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 1982





-Doutor, eu hoje estou a fim de falar. Nem precisa forçar a barra, porque baixou em mim o Caboclo Falador.

-Então, vamos lá.

-Olha, eu não sou eu só, não, senhor. Faço parte de um grupo que foi reunido aqui por um cara chamado Deus. E... quer saber, doutor? Eu acho que Deus é legal pelas coisas geniais que bolou, menos uma: o "homo sapiens", que, dizem, Ele fez à sua imagem e semelhança. Imagina! "Homo sapiens"! Isso não é gozação? E o nosso grupo, infelizmente, só conta com tais espécimes, com exceção do meu cachorro e do gato da Lola, que não têm direito a voto.

-Mas esse não é um grupo muito doido?

-Falou , doutor. O meu é um grupinho complicado. Vive entalado em mil transas burras. Imagina que os membros deste grupo pirado vivem às turras... Um poda o outro e quando o pau quebra, voa pena pra todo lado. Quem está por perto racha logo fora, para não pegar as sobras... Mas, mesmo assim, o grupo também canta, o grupo curte um som, o grupo ama, adora a chuva, o sol, as estrelas, o céu e o mar. Numa boa... Mas quando alguém do grupo enfossa é o caos total, porque toda a turma enfossa junto. A aldeia global fica de cabeça para baixo.

-E é verdade que o seu grupo também faz terapia?

-Claro! Não tá vendo que está todo mundo aqui? Olhe aqui, doutor: já cheguei a uma triste conclusão: o nosso grupo não tem mais jeito, não! Nem com terapia ele conserta. Estamos afundados até o pescoço nas nossas próprias confusões igualzinho a um explorador azarado que, lá onde o Judas perdeu as botas, mergulha em areia movediça. Não adianta pedir socorro... mas, olha, parece até que eu tenho espírito de contradição, porque , mesmo assim acredito nesse pessoal aloprado. Eles até que são gente boa, gente bem intencionada e é mentira que alguma vez tenham "viajado". Amam o solo que pisam, são daqui mesmo e não precisam fugir, porque nunca mataram, nem roubaram , nem prejudicaram ninguém. Só que fazem tudo errado e nem mesmo sei se sabem amar direito. Eles nunca deviam ter vindo para cá pois perturbam aqueles que se julgam donos da verdade e têm certeza de andar por trilhas retas e que até acham o nosso grupo um lixo.


-Mas vocês nunca deram motivo para que os outros pensem assim?


-É isso aí, doutor. Para os fortes, nós somos a escória. Eles acham que nós somos fracos. Pronto! Falei tudo! O nosso grupo não serve pra se relacionar com os fortes, com aqueles que pegam bonito o boi pelos chifres, que lutam, brigam e obrigam. É um grupo que sonha caminhando e que não faz muito caso do dinheiro, tão necessário neste mundo besta. O nosso grupo devia viver entre trogloditas ou, então, lá bem no fundo da selva amazônica. É um grupo que estuda, mas não sabe nada, que canta, mas desafina demais e, por isso, ninguém consegue entender seu som. Por isso o grupo às vezes briga. Sacou, doutor?


-Mas por que brigar? Pra quê? Qual é a de vocês?


-O meu, doutor, é aquele grupo besta que se enfossa quando vê nego bebo esfarrapado, caindo de maduro pelas ruas onde rodam Mustangs, Camaros e Porsches. E meu grupo também se rebela quando vê o pivete que, carregando a sua caixa de engraxate, vai correndo e chorando pela rua, sem levar nada pra casa e no maior sufoco, porque afanaram a grana que ganhou numa tarde de domingo.

-O meu grupo é aquele que tem raiva de não ter dinheiro para ajudar aquela turma de pau-de-araras que chegou recentemente à cidade grande e que dorme amontoada na calçada e no qual quase tropeçam os que vão pras buates, pros cinemas, pros teatros, pras discotecas e pras lanchonetes encher as gordas panças que já tomaram o farto café-da-manhã, já almoçaram como paxás e mais tarde, ainda irão jantar.

O meu grupo adoece por causa de todos estes problemas e de outros parecidos, chuta pedras na rua e até chora, mas não resolve nada. Nós temos vontade de consertar o mundo, mas não sabemos como fazer isso. É tudo muito louco, sabe?Mas é uma doideira inofensiva...

-Entendo. Ou melhor, acho que entendo...

-Pois é. Este grupo, doutor, não devia ter sido engendrado, mas, quando Aquele lá de cima resolve, Ele cria grupos assim, fajutos mesmo, mas, acredito que jamais realizou antes a brilhante façanha de produzir um grupo que nem o próprio Édipo decifra. E o grupo muitas vezes se entredevora... e até vomita fel...

-Mas você mesmo diz que o grupo tem garra. Que garra é essa que afrouxa tão fácil?

-O nosso grupo, doutor, é um grupo às avessas. Mas é gênio, puro gênio, sabe?

-Por que vocês não dissolvem este grupo maluco? Talvez seja essa a solução.

-Não, doutor. O grupo não se disjunta, apesar das marés contra, apesar de não resolver seus grilos.

-Mas... o grupo estuda mesmo?

-Continua aprendendo, pois, não sabe das coisas...

-Então, o que seria melhor para vocês?

-Nós devíamos ser cegos, doutor... cegos e surdos e mudos.

-?!

-Não esquenta não, doutor! O seu gravador está ligado? Deixa eu ouvir nosso papo, pode ser? Quero ouvir direitinho a opinião de cada um dos componentes do meu grupo... Nós falamos tanta besteira... Acho que hoje nós estamos mesmo atacados...

CLIC!