PUBLICADO EM A GAZETA - VITÓRIA(es), TERÇA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO DE 1982
-Doutor, eu hoje estou a fim de falar. Nem precisa forçar a barra, porque baixou em mim o Caboclo Falador.
-Então, vamos lá.
-Olha, eu não sou eu só, não, senhor. Faço parte de um grupo que foi reunido aqui por um cara chamado Deus. E... quer saber, doutor? Eu acho que Deus é legal pelas coisas geniais que bolou, menos uma: o "homo sapiens", que, dizem, Ele fez à sua imagem e semelhança. Imagina! "Homo sapiens"! Isso não é gozação? E o nosso grupo, infelizmente, só conta com tais espécimes, com exceção do meu cachorro e do gato da Lola, que não têm direito a voto.
-Mas esse não é um grupo muito doido?
-Falou , doutor. O meu é um grupinho complicado. Vive entalado em mil transas burras. Imagina que os membros deste grupo pirado vivem às turras... Um poda o outro e quando o pau quebra, voa pena pra todo lado. Quem está por perto racha logo fora, para não pegar as sobras... Mas, mesmo assim, o grupo também canta, o grupo curte um som, o grupo ama, adora a chuva, o sol, as estrelas, o céu e o mar. Numa boa... Mas quando alguém do grupo enfossa é o caos total, porque toda a turma enfossa junto. A aldeia global fica de cabeça para baixo.
-E é verdade que o seu grupo também faz terapia?
-Claro! Não tá vendo que está todo mundo aqui? Olhe aqui, doutor: já cheguei a uma triste conclusão: o nosso grupo não tem mais jeito, não! Nem com terapia ele conserta. Estamos afundados até o pescoço nas nossas próprias confusões igualzinho a um explorador azarado que, lá onde o Judas perdeu as botas, mergulha em areia movediça. Não adianta pedir socorro... mas, olha, parece até que eu tenho espírito de contradição, porque , mesmo assim acredito nesse pessoal aloprado. Eles até que são gente boa, gente bem intencionada e é mentira que alguma vez tenham "viajado". Amam o solo que pisam, são daqui mesmo e não precisam fugir, porque nunca mataram, nem roubaram , nem prejudicaram ninguém. Só que fazem tudo errado e nem mesmo sei se sabem amar direito. Eles nunca deviam ter vindo para cá pois perturbam aqueles que se julgam donos da verdade e têm certeza de andar por trilhas retas e que até acham o nosso grupo um lixo.
-Mas vocês nunca deram motivo para que os outros pensem assim?
-É isso aí, doutor. Para os fortes, nós somos a escória. Eles acham que nós somos fracos. Pronto! Falei tudo! O nosso grupo não serve pra se relacionar com os fortes, com aqueles que pegam bonito o boi pelos chifres, que lutam, brigam e obrigam. É um grupo que sonha caminhando e que não faz muito caso do dinheiro, tão necessário neste mundo besta. O nosso grupo devia viver entre trogloditas ou, então, lá bem no fundo da selva amazônica. É um grupo que estuda, mas não sabe nada, que canta, mas desafina demais e, por isso, ninguém consegue entender seu som. Por isso o grupo às vezes briga. Sacou, doutor?
-Mas por que brigar? Pra quê? Qual é a de vocês?
-O meu, doutor, é aquele grupo besta que se enfossa quando vê nego bebo esfarrapado, caindo de maduro pelas ruas onde rodam Mustangs, Camaros e Porsches. E meu grupo também se rebela quando vê o pivete que, carregando a sua caixa de engraxate, vai correndo e chorando pela rua, sem levar nada pra casa e no maior sufoco, porque afanaram a grana que ganhou numa tarde de domingo.
-O meu grupo é aquele que tem raiva de não ter dinheiro para ajudar aquela turma de pau-de-araras que chegou recentemente à cidade grande e que dorme amontoada na calçada e no qual quase tropeçam os que vão pras buates, pros cinemas, pros teatros, pras discotecas e pras lanchonetes encher as gordas panças que já tomaram o farto café-da-manhã, já almoçaram como paxás e mais tarde, ainda irão jantar.
O meu grupo adoece por causa de todos estes problemas e de outros parecidos, chuta pedras na rua e até chora, mas não resolve nada. Nós temos vontade de consertar o mundo, mas não sabemos como fazer isso. É tudo muito louco, sabe?Mas é uma doideira inofensiva...
-Entendo. Ou melhor, acho que entendo...
-Pois é. Este grupo, doutor, não devia ter sido engendrado, mas, quando Aquele lá de cima resolve, Ele cria grupos assim, fajutos mesmo, mas, acredito que jamais realizou antes a brilhante façanha de produzir um grupo que nem o próprio Édipo decifra. E o grupo muitas vezes se entredevora... e até vomita fel...
-Mas você mesmo diz que o grupo tem garra. Que garra é essa que afrouxa tão fácil?
-O nosso grupo, doutor, é um grupo às avessas. Mas é gênio, puro gênio, sabe?
-Por que vocês não dissolvem este grupo maluco? Talvez seja essa a solução.
-Não, doutor. O grupo não se disjunta, apesar das marés contra, apesar de não resolver seus grilos.
-Mas... o grupo estuda mesmo?
-Continua aprendendo, pois, não sabe das coisas...
-Então, o que seria melhor para vocês?
-Nós devíamos ser cegos, doutor... cegos e surdos e mudos.
-?!
-Não esquenta não, doutor! O seu gravador está ligado? Deixa eu ouvir nosso papo, pode ser? Quero ouvir direitinho a opinião de cada um dos componentes do meu grupo... Nós falamos tanta besteira... Acho que hoje nós estamos mesmo atacados...
CLIC!
sábado, 2 de maio de 2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
PEDRO E PAULO - O SIM E O NÃO
PUBLICADO PELA A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 1982
Tenho dois amigos. Sempre converso com eles. Mas converso em separado, porque juntar Pedro e Paulo para um bate-papo é dose pra leão. Fico no meio dos dois tentando segurar as pontas, pois a briga é certa. Eles nunca se entendem.
Um dia desses, porém, dei azar. Estava conversando com o Pedro em um barzinho na praia e tomando um chopinho pra espantar o calor, quando me apareceu o Paulo, sorridente e devidamente descamisado, aspecto feliz de gordo em paz com a vida, banhas saltando pelo cós do calção branco.
-Oi, Zé! Oi, Pedro! Como têm coragem de de fazer uma sujeira dessas comigo? Você sabem que também gosto de um chopinho...
A risada de Paulo sacudiu o bar... e as banhas dele também.
Fiquei em pânico e gaguejante, mas foi o Pedro que resolveu o impasse:
-Senta aí, ô cara! Faz doce, não! Você nunca precisou de convite...
Mesmo antes do Pedro ter falado, o Paulo já se esparramara numa cadeira vazia.
-Olha aqui, gente... eu tenho um compromisso... - comecei a gaguejar.
-Não me venha com conversa fiada, Zé - contra-atacou o Pedro - Você não tem compromisso coisa nenuma! Está é com medo do nosso bate-boca.
Paulo riu de novo, mandando um sopapo nas minhas pobres e magras costas.
-Tá bom - disse eu, resignado - Eu não vou fugir , não. Só que hoje eu vou controlar a conversa. Como numa partida de pingue-pongue, eu jogo uma palavra e vocês falam o que quiserem ou respondem o que pensam sobre o assunto. Sem brigas. Topam?
Mastigando rapidamente um pedaço de peixe frito, Paulo concordou, suando por todos os poros:
-É uma ótima idéia. Vamos lá!
Comecei a brincadeira:
- IRMÃOS.
PAULO (iniciando o joguinho de palavras) - Quando crianças, sob a gurada de papai e mamãe são grandes amigos, os maiores camaradas nos estudos, nos folguedos. Desentendimentos mínimos.
PEDRO - (prosseguindo) - Quando crescem, ei-los inimigos: incompreensões, frieza, brigas por causa de herança, de casamento, de invejas e de outras tolices de menor importância.
- AMIGOS
PAULO - Companheiros de chope, de serestas, dos bons momentos da vida, são eles é que ajudam a gente a segurar muitas barras...
PEDRO - Quando a gente precisa, sempre longe eles estão! Como fogem de nós! Quando não se precisa deles, estão ali, presentes... perturbando... cansativos e até indigestos.
-TEMPO
PAULO - Ah, que coisa boa! Bons tempos aqueles! Tempos de criança, tempos de juventude. tempo de amar...
PEDRO -Ó tempo bandido, que passa depressa e deixa suas marcas! Onde as bolas e as pernas ágeis para correr atrás delas? Onde o amor? Onde os amigos? Como está a flor que um dia dei pra ela viçosa e colorida?
- TRABALHO
PAULO - É fonte de saúde e de energia. Ele não deixa o tédio minar a nossa resistência.
PEDRO - Puxa vida! Como cansa! Ele é o grande responsável pelo stress...
Comecei a ficar aflito, catando palavras na cuca em pânico. Disfarcei, pedindo mais chope para inspirar o Pedro e mais peixe frito para o cérebro genial do Paulo. A brincadeira estava ficando séria e os meus recursos limitados, pensei, enquanto o Pedro escapulia um instante pra tirar água do joelho. Paulo e eu ficamos alguns minutos em silêncio. Ele, comendo peixe entre imensos goles de chope. Eu, matutando e listando palavras.
Pedro voltou ajueitando o calção em cimas dos magros rins. Então, recomeçamos:
- REMÉDIO
PAULO - Ele cura.
PEDRO - Ele mata, também.
- FLOR
PAULO - Perfume e cor. Alegra a vida!
PEDRO - Cor e perfume. Enfeita a morte.
- AMOR
PAULO - Que motiva a nossa vida e nos dá alegria.
PEDRO - Que faz chorar e faz morrer. E às vezes vira ódio.
- LÁGRIMAS
PAULO - De emoção. Por uma grande alegria, por uma vitória, por uma graça alcançada.
PEDRO - De emoção. Por causa da dor, por causa da morte, por causa do desespero.
- ÁRVORE
PAULO - Sob a sua sombra amiga, o viajante, cansado, repousou.
PEDRO - Sob o peso de seu tronco derrubado por um raio, o viajante sucumbiu...
- MÚSICA
PAULO -Suaviza a mente e está presente em toda a natureza: no farfalhar das plantas, no sussurro da brisa e nas vozes dos animais... É vida e emoção.
PEDRO - Entristece e traz com ela a saudade. É emoção e morte.
- VIDA
PAULO - Quantas compensações!
PEDRO - Quantas decepções!
- MORTE
PAULO - Esperança de paz quando há Fé, quando se crê que não é o fim.
PEDRO - Medo, por não se querer enfrentar o Nada ou remorso, pelo temor do castigo.
- CHOQUE DE GERAÇÕES
PAULO - Estou chegando ao fim da vida. Falo com a voz da experiência... Isso é algo que não se pode desprezar. Meus pais me ensinaram este caminho. Quando jovem, eu não entendia, mas, agora, eu quero transmitir aos meus filhos tudo o que aprendi com eles.
PEDRO - Sou jovem. Não entendo os mais velhos... Não falamos a mesma linguagem.
- CONFIDENTE
PAULO - Você me conta os seus sucessos... as suas mágoas... e os seus rancores... e eu ouço...
PEDRO - Escute aqui: por que você não se preocupa em me ouvir também?
- PAULO - eu arrisquei tentando acabar com a história.
O amigo Paulo hesitou e me olhou, espantado. Então o Pedro tomou a palavra:
-Meu pai. Um cara genial, que sabe das coisas... mas só que ele é otimista demas.
- Não. Não concordo com você - respondeu Paulo que de repente se tornara sério - Eu acho que o Paulo é um cara que tem muito a aprender ainda.
- PEDRO - falei então mirando um e outro.
PAULO - Meu filho. Um cara inteligente, mas, que, apesar de jovem, é muito pessimista.
PEDRO - Sim, senhor! Esse aí sou eu mesmo! Pela primeira vez eu digo: é pai, você tem razão.
Nosso papo foi interrompido por um fusquinha amarelo que estacionou em frente ao bar, buzinando com impertinência. Era Nena, cuja mão gorducha acenou para nós, enquanto a jovem gritava:
- Papai, Pedro! A mamãe mandou buscar vocês. Ela já vai servir o almoço.
De repente eu me vi sozinho diante de uns restos de peixe frito e três copos de chope quase intactos. E me surpreendi jogando o tal do piongue-pongue:
-SOLIDÃO
- Paz. Para refletir... para sonhar...
- Angústia. Que deprime e faz suspirar...
Tenho dois amigos. Sempre converso com eles. Mas converso em separado, porque juntar Pedro e Paulo para um bate-papo é dose pra leão. Fico no meio dos dois tentando segurar as pontas, pois a briga é certa. Eles nunca se entendem.
Um dia desses, porém, dei azar. Estava conversando com o Pedro em um barzinho na praia e tomando um chopinho pra espantar o calor, quando me apareceu o Paulo, sorridente e devidamente descamisado, aspecto feliz de gordo em paz com a vida, banhas saltando pelo cós do calção branco.
-Oi, Zé! Oi, Pedro! Como têm coragem de de fazer uma sujeira dessas comigo? Você sabem que também gosto de um chopinho...
A risada de Paulo sacudiu o bar... e as banhas dele também.
Fiquei em pânico e gaguejante, mas foi o Pedro que resolveu o impasse:
-Senta aí, ô cara! Faz doce, não! Você nunca precisou de convite...
Mesmo antes do Pedro ter falado, o Paulo já se esparramara numa cadeira vazia.
-Olha aqui, gente... eu tenho um compromisso... - comecei a gaguejar.
-Não me venha com conversa fiada, Zé - contra-atacou o Pedro - Você não tem compromisso coisa nenuma! Está é com medo do nosso bate-boca.
Paulo riu de novo, mandando um sopapo nas minhas pobres e magras costas.
-Tá bom - disse eu, resignado - Eu não vou fugir , não. Só que hoje eu vou controlar a conversa. Como numa partida de pingue-pongue, eu jogo uma palavra e vocês falam o que quiserem ou respondem o que pensam sobre o assunto. Sem brigas. Topam?
Mastigando rapidamente um pedaço de peixe frito, Paulo concordou, suando por todos os poros:
-É uma ótima idéia. Vamos lá!
Comecei a brincadeira:
- IRMÃOS.
PAULO (iniciando o joguinho de palavras) - Quando crianças, sob a gurada de papai e mamãe são grandes amigos, os maiores camaradas nos estudos, nos folguedos. Desentendimentos mínimos.
PEDRO - (prosseguindo) - Quando crescem, ei-los inimigos: incompreensões, frieza, brigas por causa de herança, de casamento, de invejas e de outras tolices de menor importância.
- AMIGOS
PAULO - Companheiros de chope, de serestas, dos bons momentos da vida, são eles é que ajudam a gente a segurar muitas barras...
PEDRO - Quando a gente precisa, sempre longe eles estão! Como fogem de nós! Quando não se precisa deles, estão ali, presentes... perturbando... cansativos e até indigestos.
-TEMPO
PAULO - Ah, que coisa boa! Bons tempos aqueles! Tempos de criança, tempos de juventude. tempo de amar...
PEDRO -Ó tempo bandido, que passa depressa e deixa suas marcas! Onde as bolas e as pernas ágeis para correr atrás delas? Onde o amor? Onde os amigos? Como está a flor que um dia dei pra ela viçosa e colorida?
- TRABALHO
PAULO - É fonte de saúde e de energia. Ele não deixa o tédio minar a nossa resistência.
PEDRO - Puxa vida! Como cansa! Ele é o grande responsável pelo stress...
Comecei a ficar aflito, catando palavras na cuca em pânico. Disfarcei, pedindo mais chope para inspirar o Pedro e mais peixe frito para o cérebro genial do Paulo. A brincadeira estava ficando séria e os meus recursos limitados, pensei, enquanto o Pedro escapulia um instante pra tirar água do joelho. Paulo e eu ficamos alguns minutos em silêncio. Ele, comendo peixe entre imensos goles de chope. Eu, matutando e listando palavras.
Pedro voltou ajueitando o calção em cimas dos magros rins. Então, recomeçamos:
- REMÉDIO
PAULO - Ele cura.
PEDRO - Ele mata, também.
- FLOR
PAULO - Perfume e cor. Alegra a vida!
PEDRO - Cor e perfume. Enfeita a morte.
- AMOR
PAULO - Que motiva a nossa vida e nos dá alegria.
PEDRO - Que faz chorar e faz morrer. E às vezes vira ódio.
- LÁGRIMAS
PAULO - De emoção. Por uma grande alegria, por uma vitória, por uma graça alcançada.
PEDRO - De emoção. Por causa da dor, por causa da morte, por causa do desespero.
- ÁRVORE
PAULO - Sob a sua sombra amiga, o viajante, cansado, repousou.
PEDRO - Sob o peso de seu tronco derrubado por um raio, o viajante sucumbiu...
- MÚSICA
PAULO -Suaviza a mente e está presente em toda a natureza: no farfalhar das plantas, no sussurro da brisa e nas vozes dos animais... É vida e emoção.
PEDRO - Entristece e traz com ela a saudade. É emoção e morte.
- VIDA
PAULO - Quantas compensações!
PEDRO - Quantas decepções!
- MORTE
PAULO - Esperança de paz quando há Fé, quando se crê que não é o fim.
PEDRO - Medo, por não se querer enfrentar o Nada ou remorso, pelo temor do castigo.
- CHOQUE DE GERAÇÕES
PAULO - Estou chegando ao fim da vida. Falo com a voz da experiência... Isso é algo que não se pode desprezar. Meus pais me ensinaram este caminho. Quando jovem, eu não entendia, mas, agora, eu quero transmitir aos meus filhos tudo o que aprendi com eles.
PEDRO - Sou jovem. Não entendo os mais velhos... Não falamos a mesma linguagem.
- CONFIDENTE
PAULO - Você me conta os seus sucessos... as suas mágoas... e os seus rancores... e eu ouço...
PEDRO - Escute aqui: por que você não se preocupa em me ouvir também?
- PAULO - eu arrisquei tentando acabar com a história.
O amigo Paulo hesitou e me olhou, espantado. Então o Pedro tomou a palavra:
-Meu pai. Um cara genial, que sabe das coisas... mas só que ele é otimista demas.
- Não. Não concordo com você - respondeu Paulo que de repente se tornara sério - Eu acho que o Paulo é um cara que tem muito a aprender ainda.
- PEDRO - falei então mirando um e outro.
PAULO - Meu filho. Um cara inteligente, mas, que, apesar de jovem, é muito pessimista.
PEDRO - Sim, senhor! Esse aí sou eu mesmo! Pela primeira vez eu digo: é pai, você tem razão.
Nosso papo foi interrompido por um fusquinha amarelo que estacionou em frente ao bar, buzinando com impertinência. Era Nena, cuja mão gorducha acenou para nós, enquanto a jovem gritava:
- Papai, Pedro! A mamãe mandou buscar vocês. Ela já vai servir o almoço.
De repente eu me vi sozinho diante de uns restos de peixe frito e três copos de chope quase intactos. E me surpreendi jogando o tal do piongue-pongue:
-SOLIDÃO
- Paz. Para refletir... para sonhar...
- Angústia. Que deprime e faz suspirar...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
CINCO DE JULHO - TOQUE DE SILÊNCIO
A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA FEIRA, 11 DE AGOSTO DE 1982 - PÁGINA 14
O choro do siêncio foi tão exasperante que se assemelhava à frequência de um lamento de lobo no fundo de um desfiladeiro.
Era a sempre e má conselheira esperança que voava para longe mais depressa do que o sonho de milhões de canarinhos enfeitiçados diante de milhares de cenas iguais. Foi aí que o Zé Pacheco rompeu o seu desespero como uma pergunta desvairada ao telefone:
- Pelo amor de Deus! Tião? Na sua televisão não saiu nem um golzinho a mais para o Brasil? Não? E eu que pensei que a minha estava gozando a minha cara...
E agora, Pacheco?
Mãos na boca, palavrões na cabeça, coração gemendo...
Cerveja escorrendo pela barba crescida por causa de promessa feita pro Brasil ganhar a Copa, suor rolando nos olhos, tanto quanto rolou a bola em triunfo-desespero pelos campos espanhóis. Lágrimas invadindo os poros, sem pedir licença, a figura do Pacheco era mais uma entre os mártires da derrota.
Angústia + choro + luto tingem a camisa doze, apagando de repente o brilho verde-amarelo.
Pacheco não tem coragem pra dar a volta por cima... como? se ele está tão por baixo?
Não tem mais aquela garra
... pra estudar
... pra trabalhar
... pra dormir
... pra dormir
... pra comer
... nem mesmo para beber... a garganta está cerrada... tem um caroço no gogó...
Não fala... mas ainda pensa:
- Por quê? Logo contra a Itália? Seleção que não é de nada e que só teve uma vitória contra os zonzos argentinos? Meu Deus, eu nem acredito... me belisca pra doer... será que ainda estou vivo? Estou sofrendo pra burro! Eu só queria matar quem disse que coração não dói... O meu só está doendo. Eder, cadê seu gol? Zico, quem te mandingou? Júnior, pelo amor de Deus! Sócrates... doutor... o que foi que aconteceu? Cerezo, que brincadeira besta foi aquela que você aprontou bem nas barbas do Waldir e nos pés do italiano? Por quê? Não está dando pra entender...
E as escadas rangedoras levam as pernas do Pacheco até o baú do sótão, onde deixa a camisa doze escondida lá bem no fundo, desolada e envergonhada.
Quanta festa antecipada e quantos milhões mandou-se direto pro beleléu! Não existe mais encontro, há somente desencontro e também o desencanto... A seleção se encolheu, Itália desencabulou e o Rossi virou herói.
Pacheco chora e murumura:
- Arrivederci, cara mia...até à Copa de 86! Quando o cometa de Halley brilhar nos céus do planeta, talvez a sorte se inverta e seremos campeões. Até lá, camisa doze, que não deu sorte a ninguém...
Vitória, 06 de julho de 1982.
O choro do siêncio foi tão exasperante que se assemelhava à frequência de um lamento de lobo no fundo de um desfiladeiro.
Era a sempre e má conselheira esperança que voava para longe mais depressa do que o sonho de milhões de canarinhos enfeitiçados diante de milhares de cenas iguais. Foi aí que o Zé Pacheco rompeu o seu desespero como uma pergunta desvairada ao telefone:
- Pelo amor de Deus! Tião? Na sua televisão não saiu nem um golzinho a mais para o Brasil? Não? E eu que pensei que a minha estava gozando a minha cara...
E agora, Pacheco?
Mãos na boca, palavrões na cabeça, coração gemendo...
Cerveja escorrendo pela barba crescida por causa de promessa feita pro Brasil ganhar a Copa, suor rolando nos olhos, tanto quanto rolou a bola em triunfo-desespero pelos campos espanhóis. Lágrimas invadindo os poros, sem pedir licença, a figura do Pacheco era mais uma entre os mártires da derrota.
Angústia + choro + luto tingem a camisa doze, apagando de repente o brilho verde-amarelo.
Pacheco não tem coragem pra dar a volta por cima... como? se ele está tão por baixo?
Não tem mais aquela garra
... pra estudar
... pra trabalhar
... pra dormir
... pra dormir
... pra comer
... nem mesmo para beber... a garganta está cerrada... tem um caroço no gogó...
Não fala... mas ainda pensa:
- Por quê? Logo contra a Itália? Seleção que não é de nada e que só teve uma vitória contra os zonzos argentinos? Meu Deus, eu nem acredito... me belisca pra doer... será que ainda estou vivo? Estou sofrendo pra burro! Eu só queria matar quem disse que coração não dói... O meu só está doendo. Eder, cadê seu gol? Zico, quem te mandingou? Júnior, pelo amor de Deus! Sócrates... doutor... o que foi que aconteceu? Cerezo, que brincadeira besta foi aquela que você aprontou bem nas barbas do Waldir e nos pés do italiano? Por quê? Não está dando pra entender...
E as escadas rangedoras levam as pernas do Pacheco até o baú do sótão, onde deixa a camisa doze escondida lá bem no fundo, desolada e envergonhada.
Quanta festa antecipada e quantos milhões mandou-se direto pro beleléu! Não existe mais encontro, há somente desencontro e também o desencanto... A seleção se encolheu, Itália desencabulou e o Rossi virou herói.
Pacheco chora e murumura:
- Arrivederci, cara mia...até à Copa de 86! Quando o cometa de Halley brilhar nos céus do planeta, talvez a sorte se inverta e seremos campeões. Até lá, camisa doze, que não deu sorte a ninguém...
Vitória, 06 de julho de 1982.
EIS AQUI ALGUNS DO MEUS VELHOS CONTOS
Feliz ou infelizmente, não sei bem, perdi muitos dos meus contos, devido a contínuas mudanças ou, muitas vezes, por engano ou por desgostar daqueles que atirei ao lixo.
Aqueles que salvei sem perceber foram escritos há muitos anos
Alguns foram publicados, outros não.
Acabei de descobri-los encafuados em uma velha pasta bem lá no alto do meu armário, no qual, felizmente, não há traças.
Causaram-me alguns espirros, evidentemente, mas nada que fosse prejudicial a não ser à velha alergia que se manifesta ante a poeira e o ventinho gelado do curto inverno nacional.
Aqueles que salvei sem perceber foram escritos há muitos anos
Alguns foram publicados, outros não.
Acabei de descobri-los encafuados em uma velha pasta bem lá no alto do meu armário, no qual, felizmente, não há traças.
Causaram-me alguns espirros, evidentemente, mas nada que fosse prejudicial a não ser à velha alergia que se manifesta ante a poeira e o ventinho gelado do curto inverno nacional.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Literatura
Decidi criar um blog para reunir os trabalhos que escrevi durante algum tempo de minha vida. Sem fotos, a não ser a minha e, assim mesmo, tão somente para identificação.
É que escrevi muito durante toda a minha vida e nem todos os meus trabalhos foram publicados. A maioria deles, aliás. Muitos até foram rasgados e atirados ao lixo.
Finalmente, um dos meus escritos foi editado pela PROTEXTO - Editora Zamoner Ltda. de Curitiba/PR: o romance PARAÍSO PROFANADO, constituído por três volumes:
LIVRO I - Nosso Éden, Agora e Sempre
LIVRO II - Alguns Anjos: Ainda Aqui!
LIVRO III - Medo? Jamais! Esperança? Sempre!
Onde adquirir: http://www.protexto.com.br/autor.php?cod_autor=139
Sei como é difícil vender livros neste nosso país, mas conto com os apreciadores da literatura para deslanchar o sucesso da minha obra.
Mas quero me valer também da Internet para divulgar crônicas, contos e... quem sabe, até um novo livro também!
Conto com os blogueiros que gostem de ler histórias.
É que escrevi muito durante toda a minha vida e nem todos os meus trabalhos foram publicados. A maioria deles, aliás. Muitos até foram rasgados e atirados ao lixo.
Finalmente, um dos meus escritos foi editado pela PROTEXTO - Editora Zamoner Ltda. de Curitiba/PR: o romance PARAÍSO PROFANADO, constituído por três volumes:
LIVRO I - Nosso Éden, Agora e Sempre
LIVRO II - Alguns Anjos: Ainda Aqui!
LIVRO III - Medo? Jamais! Esperança? Sempre!
Onde adquirir: http://www.protexto.com.br/autor.php?cod_autor=139
Sei como é difícil vender livros neste nosso país, mas conto com os apreciadores da literatura para deslanchar o sucesso da minha obra.
Mas quero me valer também da Internet para divulgar crônicas, contos e... quem sabe, até um novo livro também!
Conto com os blogueiros que gostem de ler histórias.
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