quinta-feira, 30 de abril de 2009

PEDRO E PAULO - O SIM E O NÃO

PUBLICADO PELA A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 1982

Tenho dois amigos. Sempre converso com eles. Mas converso em separado, porque juntar Pedro e Paulo para um bate-papo é dose pra leão. Fico no meio dos dois tentando segurar as pontas, pois a briga é certa. Eles nunca se entendem.
Um dia desses, porém, dei azar. Estava conversando com o Pedro em um barzinho na praia e tomando um chopinho pra espantar o calor, quando me apareceu o Paulo, sorridente e devidamente descamisado, aspecto feliz de gordo em paz com a vida, banhas saltando pelo cós do calção branco.
-Oi, Zé! Oi, Pedro! Como têm coragem de de fazer uma sujeira dessas comigo? Você sabem que também gosto de um chopinho...
A risada de Paulo sacudiu o bar... e as banhas dele também.
Fiquei em pânico e gaguejante, mas foi o Pedro que resolveu o impasse:
-Senta aí, ô cara! Faz doce, não! Você nunca precisou de convite...
Mesmo antes do Pedro ter falado, o Paulo já se esparramara numa cadeira vazia.
-Olha aqui, gente... eu tenho um compromisso... - comecei a gaguejar.
-Não me venha com conversa fiada, Zé - contra-atacou o Pedro - Você não tem compromisso coisa nenuma! Está é com medo do nosso bate-boca.
Paulo riu de novo, mandando um sopapo nas minhas pobres e magras costas.
-Tá bom - disse eu, resignado - Eu não vou fugir , não. Só que hoje eu vou controlar a conversa. Como numa partida de pingue-pongue, eu jogo uma palavra e vocês falam o que quiserem ou respondem o que pensam sobre o assunto. Sem brigas. Topam?
Mastigando rapidamente um pedaço de peixe frito, Paulo concordou, suando por todos os poros:
-É uma ótima idéia. Vamos lá!
Comecei a brincadeira:
- IRMÃOS.
PAULO (iniciando o joguinho de palavras) - Quando crianças, sob a gurada de papai e mamãe são grandes amigos, os maiores camaradas nos estudos, nos folguedos. Desentendimentos mínimos.
PEDRO - (prosseguindo) - Quando crescem, ei-los inimigos: incompreensões, frieza, brigas por causa de herança, de casamento, de invejas e de outras tolices de menor importância.
- AMIGOS
PAULO - Companheiros de chope, de serestas, dos bons momentos da vida, são eles é que ajudam a gente a segurar muitas barras...
PEDRO - Quando a gente precisa, sempre longe eles estão! Como fogem de nós! Quando não se precisa deles, estão ali, presentes... perturbando... cansativos e até indigestos.
-TEMPO
PAULO - Ah, que coisa boa! Bons tempos aqueles! Tempos de criança, tempos de juventude. tempo de amar...
PEDRO -Ó tempo bandido, que passa depressa e deixa suas marcas! Onde as bolas e as pernas ágeis para correr atrás delas? Onde o amor? Onde os amigos? Como está a flor que um dia dei pra ela viçosa e colorida?
- TRABALHO
PAULO - É fonte de saúde e de energia. Ele não deixa o tédio minar a nossa resistência.
PEDRO - Puxa vida! Como cansa! Ele é o grande responsável pelo stress...
Comecei a ficar aflito, catando palavras na cuca em pânico. Disfarcei, pedindo mais chope para inspirar o Pedro e mais peixe frito para o cérebro genial do Paulo. A brincadeira estava ficando séria e os meus recursos limitados, pensei, enquanto o Pedro escapulia um instante pra tirar água do joelho. Paulo e eu ficamos alguns minutos em silêncio. Ele, comendo peixe entre imensos goles de chope. Eu, matutando e listando palavras.
Pedro voltou ajueitando o calção em cimas dos magros rins. Então, recomeçamos:
- REMÉDIO
PAULO - Ele cura.
PEDRO - Ele mata, também.
- FLOR
PAULO - Perfume e cor. Alegra a vida!
PEDRO - Cor e perfume. Enfeita a morte.
- AMOR
PAULO - Que motiva a nossa vida e nos dá alegria.
PEDRO - Que faz chorar e faz morrer. E às vezes vira ódio.
- LÁGRIMAS
PAULO - De emoção. Por uma grande alegria, por uma vitória, por uma graça alcançada.
PEDRO - De emoção. Por causa da dor, por causa da morte, por causa do desespero.
- ÁRVORE
PAULO - Sob a sua sombra amiga, o viajante, cansado, repousou.
PEDRO - Sob o peso de seu tronco derrubado por um raio, o viajante sucumbiu...
- MÚSICA
PAULO -Suaviza a mente e está presente em toda a natureza: no farfalhar das plantas, no sussurro da brisa e nas vozes dos animais... É vida e emoção.
PEDRO - Entristece e traz com ela a saudade. É emoção e morte.
- VIDA
PAULO - Quantas compensações!
PEDRO - Quantas decepções!
- MORTE
PAULO - Esperança de paz quando há Fé, quando se crê que não é o fim.
PEDRO - Medo, por não se querer enfrentar o Nada ou remorso, pelo temor do castigo.
- CHOQUE DE GERAÇÕES
PAULO - Estou chegando ao fim da vida. Falo com a voz da experiência... Isso é algo que não se pode desprezar. Meus pais me ensinaram este caminho. Quando jovem, eu não entendia, mas, agora, eu quero transmitir aos meus filhos tudo o que aprendi com eles.
PEDRO - Sou jovem. Não entendo os mais velhos... Não falamos a mesma linguagem.
- CONFIDENTE
PAULO - Você me conta os seus sucessos... as suas mágoas... e os seus rancores... e eu ouço...
PEDRO - Escute aqui: por que você não se preocupa em me ouvir também?
- PAULO - eu arrisquei tentando acabar com a história.
O amigo Paulo hesitou e me olhou, espantado. Então o Pedro tomou a palavra:
-Meu pai. Um cara genial, que sabe das coisas... mas só que ele é otimista demas.
- Não. Não concordo com você - respondeu Paulo que de repente se tornara sério - Eu acho que o Paulo é um cara que tem muito a aprender ainda.
- PEDRO - falei então mirando um e outro.
PAULO - Meu filho. Um cara inteligente, mas, que, apesar de jovem, é muito pessimista.
PEDRO - Sim, senhor! Esse aí sou eu mesmo! Pela primeira vez eu digo: é pai, você tem razão.
Nosso papo foi interrompido por um fusquinha amarelo que estacionou em frente ao bar, buzinando com impertinência. Era Nena, cuja mão gorducha acenou para nós, enquanto a jovem gritava:
- Papai, Pedro! A mamãe mandou buscar vocês. Ela já vai servir o almoço.
De repente eu me vi sozinho diante de uns restos de peixe frito e três copos de chope quase intactos. E me surpreendi jogando o tal do piongue-pongue:
-SOLIDÃO
- Paz. Para refletir... para sonhar...
- Angústia. Que deprime e faz suspirar...



quarta-feira, 29 de abril de 2009

CINCO DE JULHO - TOQUE DE SILÊNCIO

A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA FEIRA, 11 DE AGOSTO DE 1982 - PÁGINA 14

O choro do siêncio foi tão exasperante que se assemelhava à frequência de um lamento de lobo no fundo de um desfiladeiro.
Era a sempre e má conselheira esperança que voava para longe mais depressa do que o sonho de milhões de canarinhos enfeitiçados diante de milhares de cenas iguais. Foi aí que o Zé Pacheco rompeu o seu desespero como uma pergunta desvairada ao telefone:
- Pelo amor de Deus! Tião? Na sua televisão não saiu nem um golzinho a mais para o Brasil? Não? E eu que pensei que a minha estava gozando a minha cara...
E agora, Pacheco?
Mãos na boca, palavrões na cabeça, coração gemendo...
Cerveja escorrendo pela barba crescida por causa de promessa feita pro Brasil ganhar a Copa, suor rolando nos olhos, tanto quanto rolou a bola em triunfo-desespero pelos campos espanhóis. Lágrimas invadindo os poros, sem pedir licença, a figura do Pacheco era mais uma entre os mártires da derrota.
Angústia + choro + luto tingem a camisa doze, apagando de repente o brilho verde-amarelo.
Pacheco não tem coragem pra dar a volta por cima... como? se ele está tão por baixo?
Não tem mais aquela garra
... pra estudar
... pra trabalhar
... pra dormir
... pra dormir
... pra comer
... nem mesmo para beber... a garganta está cerrada... tem um caroço no gogó...
Não fala... mas ainda pensa:
- Por quê? Logo contra a Itália? Seleção que não é de nada e que só teve uma vitória contra os zonzos argentinos? Meu Deus, eu nem acredito... me belisca pra doer... será que ainda estou vivo? Estou sofrendo pra burro! Eu só queria matar quem disse que coração não dói... O meu só está doendo. Eder, cadê seu gol? Zico, quem te mandingou? Júnior, pelo amor de Deus! Sócrates... doutor... o que foi que aconteceu? Cerezo, que brincadeira besta foi aquela que você aprontou bem nas barbas do Waldir e nos pés do italiano? Por quê? Não está dando pra entender...
E as escadas rangedoras levam as pernas do Pacheco até o baú do sótão, onde deixa a camisa doze escondida lá bem no fundo, desolada e envergonhada.
Quanta festa antecipada e quantos milhões mandou-se direto pro beleléu! Não existe mais encontro, há somente desencontro e também o desencanto... A seleção se encolheu, Itália desencabulou e o Rossi virou herói.
Pacheco chora e murumura:
- Arrivederci, cara mia...até à Copa de 86! Quando o cometa de Halley brilhar nos céus do planeta, talvez a sorte se inverta e seremos campeões. Até lá, camisa doze, que não deu sorte a ninguém...
Vitória, 06 de julho de 1982.

EIS AQUI ALGUNS DO MEUS VELHOS CONTOS

Feliz ou infelizmente, não sei bem, perdi muitos dos meus contos, devido a contínuas mudanças ou, muitas vezes, por engano ou por desgostar daqueles que atirei ao lixo.

Aqueles que salvei sem perceber foram escritos há muitos anos

Alguns foram publicados, outros não.

Acabei de descobri-los encafuados em uma velha pasta bem lá no alto do meu armário, no qual, felizmente, não há traças.

Causaram-me alguns espirros, evidentemente, mas nada que fosse prejudicial a não ser à velha alergia que se manifesta ante a poeira e o ventinho gelado do curto inverno nacional.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Literatura

Decidi criar um blog para reunir os trabalhos que escrevi durante algum tempo de minha vida. Sem fotos, a não ser a minha e, assim mesmo, tão somente para identificação.

É que escrevi muito durante toda a minha vida e nem todos os meus trabalhos foram publicados. A maioria deles, aliás. Muitos até foram rasgados e atirados ao lixo.

Finalmente, um dos meus escritos foi editado pela PROTEXTO - Editora Zamoner Ltda. de Curitiba/PR: o romance PARAÍSO PROFANADO, constituído por três volumes:
LIVRO I - Nosso Éden, Agora e Sempre
LIVRO II - Alguns Anjos: Ainda Aqui!
LIVRO III - Medo? Jamais! Esperança? Sempre!

Onde adquirir: http://www.protexto.com.br/autor.php?cod_autor=139


Sei como é difícil vender livros neste nosso país, mas conto com os apreciadores da literatura para deslanchar o sucesso da minha obra.

Mas quero me valer também da Internet para divulgar crônicas, contos e... quem sabe, até um novo livro também!

Conto com os blogueiros que gostem de ler histórias.