A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA FEIRA, 11 DE AGOSTO DE 1982 - PÁGINA 14
O choro do siêncio foi tão exasperante que se assemelhava à frequência de um lamento de lobo no fundo de um desfiladeiro.
Era a sempre e má conselheira esperança que voava para longe mais depressa do que o sonho de milhões de canarinhos enfeitiçados diante de milhares de cenas iguais. Foi aí que o Zé Pacheco rompeu o seu desespero como uma pergunta desvairada ao telefone:
- Pelo amor de Deus! Tião? Na sua televisão não saiu nem um golzinho a mais para o Brasil? Não? E eu que pensei que a minha estava gozando a minha cara...
E agora, Pacheco?
Mãos na boca, palavrões na cabeça, coração gemendo...
Cerveja escorrendo pela barba crescida por causa de promessa feita pro Brasil ganhar a Copa, suor rolando nos olhos, tanto quanto rolou a bola em triunfo-desespero pelos campos espanhóis. Lágrimas invadindo os poros, sem pedir licença, a figura do Pacheco era mais uma entre os mártires da derrota.
Angústia + choro + luto tingem a camisa doze, apagando de repente o brilho verde-amarelo.
Pacheco não tem coragem pra dar a volta por cima... como? se ele está tão por baixo?
Não tem mais aquela garra
... pra estudar
... pra trabalhar
... pra dormir
... pra dormir
... pra comer
... nem mesmo para beber... a garganta está cerrada... tem um caroço no gogó...
Não fala... mas ainda pensa:
- Por quê? Logo contra a Itália? Seleção que não é de nada e que só teve uma vitória contra os zonzos argentinos? Meu Deus, eu nem acredito... me belisca pra doer... será que ainda estou vivo? Estou sofrendo pra burro! Eu só queria matar quem disse que coração não dói... O meu só está doendo. Eder, cadê seu gol? Zico, quem te mandingou? Júnior, pelo amor de Deus! Sócrates... doutor... o que foi que aconteceu? Cerezo, que brincadeira besta foi aquela que você aprontou bem nas barbas do Waldir e nos pés do italiano? Por quê? Não está dando pra entender...
E as escadas rangedoras levam as pernas do Pacheco até o baú do sótão, onde deixa a camisa doze escondida lá bem no fundo, desolada e envergonhada.
Quanta festa antecipada e quantos milhões mandou-se direto pro beleléu! Não existe mais encontro, há somente desencontro e também o desencanto... A seleção se encolheu, Itália desencabulou e o Rossi virou herói.
Pacheco chora e murumura:
- Arrivederci, cara mia...até à Copa de 86! Quando o cometa de Halley brilhar nos céus do planeta, talvez a sorte se inverta e seremos campeões. Até lá, camisa doze, que não deu sorte a ninguém...
Vitória, 06 de julho de 1982.
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