PUBLICADO PELA A GAZETA - VITÓRIA(ES) QUARTA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 1982
Tenho dois amigos. Sempre converso com eles. Mas converso em separado, porque juntar Pedro e Paulo para um bate-papo é dose pra leão. Fico no meio dos dois tentando segurar as pontas, pois a briga é certa. Eles nunca se entendem.
Um dia desses, porém, dei azar. Estava conversando com o Pedro em um barzinho na praia e tomando um chopinho pra espantar o calor, quando me apareceu o Paulo, sorridente e devidamente descamisado, aspecto feliz de gordo em paz com a vida, banhas saltando pelo cós do calção branco.
-Oi, Zé! Oi, Pedro! Como têm coragem de de fazer uma sujeira dessas comigo? Você sabem que também gosto de um chopinho...
A risada de Paulo sacudiu o bar... e as banhas dele também.
Fiquei em pânico e gaguejante, mas foi o Pedro que resolveu o impasse:
-Senta aí, ô cara! Faz doce, não! Você nunca precisou de convite...
Mesmo antes do Pedro ter falado, o Paulo já se esparramara numa cadeira vazia.
-Olha aqui, gente... eu tenho um compromisso... - comecei a gaguejar.
-Não me venha com conversa fiada, Zé - contra-atacou o Pedro - Você não tem compromisso coisa nenuma! Está é com medo do nosso bate-boca.
Paulo riu de novo, mandando um sopapo nas minhas pobres e magras costas.
-Tá bom - disse eu, resignado - Eu não vou fugir , não. Só que hoje eu vou controlar a conversa. Como numa partida de pingue-pongue, eu jogo uma palavra e vocês falam o que quiserem ou respondem o que pensam sobre o assunto. Sem brigas. Topam?
Mastigando rapidamente um pedaço de peixe frito, Paulo concordou, suando por todos os poros:
-É uma ótima idéia. Vamos lá!
Comecei a brincadeira:
- IRMÃOS.
PAULO (iniciando o joguinho de palavras) - Quando crianças, sob a gurada de papai e mamãe são grandes amigos, os maiores camaradas nos estudos, nos folguedos. Desentendimentos mínimos.
PEDRO - (prosseguindo) - Quando crescem, ei-los inimigos: incompreensões, frieza, brigas por causa de herança, de casamento, de invejas e de outras tolices de menor importância.
- AMIGOS
PAULO - Companheiros de chope, de serestas, dos bons momentos da vida, são eles é que ajudam a gente a segurar muitas barras...
PEDRO - Quando a gente precisa, sempre longe eles estão! Como fogem de nós! Quando não se precisa deles, estão ali, presentes... perturbando... cansativos e até indigestos.
-TEMPO
PAULO - Ah, que coisa boa! Bons tempos aqueles! Tempos de criança, tempos de juventude. tempo de amar...
PEDRO -Ó tempo bandido, que passa depressa e deixa suas marcas! Onde as bolas e as pernas ágeis para correr atrás delas? Onde o amor? Onde os amigos? Como está a flor que um dia dei pra ela viçosa e colorida?
- TRABALHO
PAULO - É fonte de saúde e de energia. Ele não deixa o tédio minar a nossa resistência.
PEDRO - Puxa vida! Como cansa! Ele é o grande responsável pelo stress...
Comecei a ficar aflito, catando palavras na cuca em pânico. Disfarcei, pedindo mais chope para inspirar o Pedro e mais peixe frito para o cérebro genial do Paulo. A brincadeira estava ficando séria e os meus recursos limitados, pensei, enquanto o Pedro escapulia um instante pra tirar água do joelho. Paulo e eu ficamos alguns minutos em silêncio. Ele, comendo peixe entre imensos goles de chope. Eu, matutando e listando palavras.
Pedro voltou ajueitando o calção em cimas dos magros rins. Então, recomeçamos:
- REMÉDIO
PAULO - Ele cura.
PEDRO - Ele mata, também.
- FLOR
PAULO - Perfume e cor. Alegra a vida!
PEDRO - Cor e perfume. Enfeita a morte.
- AMOR
PAULO - Que motiva a nossa vida e nos dá alegria.
PEDRO - Que faz chorar e faz morrer. E às vezes vira ódio.
- LÁGRIMAS
PAULO - De emoção. Por uma grande alegria, por uma vitória, por uma graça alcançada.
PEDRO - De emoção. Por causa da dor, por causa da morte, por causa do desespero.
- ÁRVORE
PAULO - Sob a sua sombra amiga, o viajante, cansado, repousou.
PEDRO - Sob o peso de seu tronco derrubado por um raio, o viajante sucumbiu...
- MÚSICA
PAULO -Suaviza a mente e está presente em toda a natureza: no farfalhar das plantas, no sussurro da brisa e nas vozes dos animais... É vida e emoção.
PEDRO - Entristece e traz com ela a saudade. É emoção e morte.
- VIDA
PAULO - Quantas compensações!
PEDRO - Quantas decepções!
- MORTE
PAULO - Esperança de paz quando há Fé, quando se crê que não é o fim.
PEDRO - Medo, por não se querer enfrentar o Nada ou remorso, pelo temor do castigo.
- CHOQUE DE GERAÇÕES
PAULO - Estou chegando ao fim da vida. Falo com a voz da experiência... Isso é algo que não se pode desprezar. Meus pais me ensinaram este caminho. Quando jovem, eu não entendia, mas, agora, eu quero transmitir aos meus filhos tudo o que aprendi com eles.
PEDRO - Sou jovem. Não entendo os mais velhos... Não falamos a mesma linguagem.
- CONFIDENTE
PAULO - Você me conta os seus sucessos... as suas mágoas... e os seus rancores... e eu ouço...
PEDRO - Escute aqui: por que você não se preocupa em me ouvir também?
- PAULO - eu arrisquei tentando acabar com a história.
O amigo Paulo hesitou e me olhou, espantado. Então o Pedro tomou a palavra:
-Meu pai. Um cara genial, que sabe das coisas... mas só que ele é otimista demas.
- Não. Não concordo com você - respondeu Paulo que de repente se tornara sério - Eu acho que o Paulo é um cara que tem muito a aprender ainda.
- PEDRO - falei então mirando um e outro.
PAULO - Meu filho. Um cara inteligente, mas, que, apesar de jovem, é muito pessimista.
PEDRO - Sim, senhor! Esse aí sou eu mesmo! Pela primeira vez eu digo: é pai, você tem razão.
Nosso papo foi interrompido por um fusquinha amarelo que estacionou em frente ao bar, buzinando com impertinência. Era Nena, cuja mão gorducha acenou para nós, enquanto a jovem gritava:
- Papai, Pedro! A mamãe mandou buscar vocês. Ela já vai servir o almoço.
De repente eu me vi sozinho diante de uns restos de peixe frito e três copos de chope quase intactos. E me surpreendi jogando o tal do piongue-pongue:
-SOLIDÃO
- Paz. Para refletir... para sonhar...
- Angústia. Que deprime e faz suspirar...
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